domingo, 30 de agosto de 2009

amor entre iguais

POEMA GAY


O falo é um fardo

o corpo, a farda da farsa,

e eu sou o grito, o berro, o urro, o erro

minhalma é uma menina e meu corpo uma mentira

não sou homem nem mulher

um ser que sobra e falta e desencontra

num mundo diferente de todos os mundos,

o que me conduz é a impossibilidade

o que me reduz é a incompreensão

olham-me como se eu fosse um bicho de outra espécie

e riem e criticam e excluem e odeiam

como se eu fosse um pecado, um errado, doente ou sacana.

Pobre de nós,

mulheres encarceradas em corpo que não é o nosso

como uma alma penada

sapato apertado que não nos pertence

assim eu me sinto cheio de calos,

sufocado, asfixiado, apaixonado

e o espelho me nega

e eu me acho um bicho de outra espécie,

pecado, errado doente ou sacana.

Ah, mas às vezes

eu penso que sou uma mulher enfeitiãda

que teve alterada sua forma

mas que um dia vai se quebrar o encanto

e todo esse engano vai acabar

como se eu tivesse sido sempre uma menina encantada.



Que troca de embalagens foi esta aí dos deuses

que já me mandaram nascer nesse mundo enjoado

com desvantagem

encarnando minhalma em corpo errado

como se houvesse um corpo de homem sobrando

e uma alma feminina condenada?

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